A Polícia Federal aponta o servidor da Justiça Federal Jackson Cozendey como suspeito de ter vazado, mediante pagamento, a decisão sigilosa que autorizava a operação contra a quadrilha investigada por desviar pelo menos R$ 45 milhões de clientes da Caixa Econômica Federal — muitos deles beneficiários do FGTS e do auxílio emergencial. As informações são de reportagem do Fantástico (TV Globo) divulgada nesta segunda-feira (3), e todas as imputações a seguir decorrem de investigação em curso, sem denúncia recebida ou condenação.

Por meio de sua defesa, Jackson Cozendey nega qualquer vinculação com os fatos apurados no processo. As defesas de Matheus Casado Natário, Isabely Alves de Sousa e Jader Henrique Areas de Almeida não responderam ao contato do Fantástico, que também não conseguiu falar com os advogados de Enzo Grillo Filho.

Segundo a investigação, muitos dos prejudicados ficaram sem dinheiro para despesas básicas: a PF afirma que houve casos de pessoas que deixaram de comprar remédios e até alimentos depois de terem as contas invadidas, enquanto o valor desviado, ainda de acordo com a corporação, era usado para manter um estilo de vida luxuoso e ocultar patrimônio.

Como o esquema funcionava, segundo a PF

A PF identificou dois núcleos de atuação. Em São Paulo, segundo a corporação, o casal Matheus Casado Natário e Isabely Alves de Sousa coordenava as fraudes e obtinha acesso às contas das vítimas; a investigação aponta que eles criaram uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas e mantinham parte dos recursos em criptomoedas para dificultar o rastreamento. No Rio de Janeiro, a investigação aponta Jader Henrique Areas de Almeida como suspeito de chefiar a organização, definindo a data dos golpes e distribuindo os dados das vítimas; Enzo Grillo Filho é apontado como suposto operador financeiro do grupo.

A partir da análise de celulares dos investigados, ainda conforme o Fantástico, a PF encontrou uma cópia da decisão sigilosa que autorizava a operação contra a própria quadrilha — documento que só poderia ser acessado por juízes, investigadores ou servidores da Justiça Federal. Refazendo o caminho do arquivo, a PF chegou a Jackson Cozendey, servidor que, segundo a corporação, não tinha motivo funcional para consultar o processo. Os registros indicariam que o acesso partiu da conexão de internet de um escritório de advocacia com vínculo familiar com o servidor. A PF afirma haver indícios de atuação coordenada de três servidores para fazer a decisão sair da Justiça.

O que dizem as partes

A defesa de Jackson Cozendey reitera que ele não tem qualquer vinculação com os fatos apurados. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal não quiseram gravar entrevista; segundo o Fantástico, os dois órgãos pedem à Justiça Federal novos mandados de busca e apreensão para serem cumpridos dentro da própria Justiça. Procurado, o Tribunal Regional Federal não se pronunciou sobre a investigação.

A TV Sim Brasil registra que todos os citados são investigados e presumidos inocentes até decisão judicial definitiva (art. 5º, LVII, da Constituição Federal). O espaço permanece aberto para manifestação das defesas.