Astrônomos do Observatório Europeu do Sul (ESO) disparam lasers gigantes no deserto do Atacama, no Chile, para criar "estrelas artificiais" na atmosfera terrestre. A técnica ajuda o Telescópio Muito Grande (VLT) a corrigir distorções causadas pelos gases e melhorar a nitidez das imagens do cosmos.

Por que a atmosfera atrapalha os telescópios?

Telescópios no solo enfrentam uma barreira que os telescópios espaciais não têm. Os gases que envolvem a Terra distorcem a luz das estrelas antes que ela chegue ao espelho, e as condições atmosféricas mudam o tempo todo.

A nossa atmosfera nos protege, o que é fantástico. Mas, para os astrônomos, é horrível, pois a atmosfera basicamente prejudica a nitidez da luz proveniente das estrelas e galáxias.

A explicação é de Amelia Bayo, astrônoma do ESO que orienta o uso dos instrumentos do VLT.

"Se você não compensar a atmosfera, sua estrela ficará pulando em diferentes lugares do seu detector e você acabará com uma imagem borrada", completa a astrônoma.

Como o laser cria uma estrela falsa?

O sistema usa uma técnica chamada óptica adaptativa. A luz que chega ao espelho principal do telescópio é redirecionada para um espelho menor, que muda de forma rapidamente para corrigir a distorção.

Esse espelho precisa de uma estrela brilhante como referência fixa no céu. Quando não há uma estrela natural forte o bastante na região observada, os astrônomos criam uma com o laser.

O feixe atinge uma camada rica em sódio a 90 km de altitude. A energia excita os átomos do elemento, que emitem fótons captados pelos telescópios como se fossem uma estrela de verdade.

Os equipamentos antigos exigiam corantes líquidos tóxicos e dias de trabalho só para estabilizar. Hoje, os lasers são acionados com um botão e ficam firmes a noite inteira.

O VLT tem quatro telescópios (Antu, Kueyen, Melipal e Yepun), que também podem disparar seus lasers ao mesmo tempo, formando um sistema com campo de visão maior.

A busca por imagens mais nítidas também está por trás de outras descobertas recentes, como o registro da estrela S301, que orbita um buraco negro da Via Láctea a 8% da velocidade da luz.

A tecnologia do VLT é diferente da usada por projetos recentes no espaço. A Nasa, por exemplo, lançou em agosto o telescópio espacial Nancy Grace Roman, com campo de visão 100 vezes maior, que opera fora da atmosfera e dispensa correção a laser.

Já o Hubble, também em órbita, segue flagrando fenômenos distantes sem precisar da óptica adaptativa que o VLT usa em terra.

A diferença de abordagem resume duas apostas da astronomia atual: telescópios no espaço, livres da atmosfera, e telescópios gigantes em terra, que usam laser para simular essa mesma liberdade.

O que acontece agora

Os quatro lasers do VLT já foram disparados juntos, pela primeira vez, de estruturas separadas no topo da montanha. O ESO não detalha, até a publicação desta matéria, quando o sistema completo entra em operação de rotina.