Um estudo da Fundação FHC, divulgado em 23 de setembro, atribui o fracasso da tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL) à fragmentação do Congresso, a um Judiciário forte e a uma imprensa independente, segundo a cientista política Maria Hermínia Tavares.

Autora da pesquisa, ela diz que o ex-presidente nunca buscou maioria no Legislativo.

"Ele funcionou bem quando os presidentes se chamavam Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Dois grandes negociadores, cada um no seu estilo, com sua base e agenda", afirma Maria Hermínia Tavares sobre o presidencialismo de coalizão.

"Começou a funcionar mal com a Dilma, que não era propriamente uma política habilidosa", completa a cientista política. No sistema, o Congresso é controlado pelo centrão, e todo presidente precisa negociar para avançar.

"Foi um deputado do baixíssimo clero, nunca teve presença importante na Câmara, nunca fez política democrática de fato", diz Maria Hermínia. "A ideia dele é que teria as Forças Armadas a seu lado para o que quisesse, tanto se continuasse democraticamente eleito quanto se quisesse dar um golpe."

O bloco migra para quem consegue negociar: a própria TV Sim Brasil mostrou como o Centrão se afasta de Flávio Bolsonaro e se aproxima de Lula na disputa presidencial de 2026.

O que a aposta nos militares custou

A aposta nas Forças Armadas fez Bolsonaro abrir mão de replicar o que líderes autoritários fizeram em El Salvador, Hungria e Polônia: aprovar leis que reduzissem a independência do Judiciário e cercear a mídia, segundo o estudo.

"No governo Bolsonaro, isso efetivamente não aconteceu", afirma a autora. "Eu tenho a impressão de que a formação militar pesou para isso", completa.

Ela cita como evidência que o ex-presidente cortejou sistematicamente as Forças Armadas e as Polícias Militares, foi a todas as cerimônias de formatura e protegeu os militares na reforma da Previdência.

O que acontece agora

A tentativa de golpe já rendeu condenação a Bolsonaro, e o processo segue em fase de recursos. A defesa dele usa o Caso Master para pedir revisão de pena.

Foi um pedido incomum. Ele recorreu a Kássio Nunes Marques, não a Alexandre de Moraes, relator do caso, na tentativa de reverter a decisão por outra via dentro do próprio tribunal.