Christa Pike, condenada à morte nos Estados Unidos, está "com raiva e confusa" seis dias depois de sobreviver a duas doses de pentobarbital aplicadas numa tentativa fracassada de execução, disse seu advogado nesta quarta-feira (7). Uma juíza determinou a preservação das provas do caso.

"Ela está com raiva e confusa com tudo neste momento. Ela tem plena consciência do que fizeram com ela até certo ponto", disse o advogado Randy Spivey em entrevista coletiva.

Pike, 50 anos, foi condenada por participar do assassinato da colega de escola Colleen Slemmer, em 1995. A primeira tentativa de executá-la aconteceu em 30 de setembro.

Por que o caso de Pike é considerado inédito?

Porque, segundo o Death Penalty Information Center, ela é a única pessoa conhecida a sobreviver depois de receber as drogas de uma execução nos EUA. Falha em execução não é rara, mas sobreviver a ela sim.

Entre 1890 e 2010, 3,15% das execuções nos EUA tiveram algum tipo de falha, segundo levantamento acadêmico que reúne 8.776 casos. Só a injeção letal, método usado contra Pike, falhou em 7,2% das vezes naquele período.

A taxa vem piorando: em 2022, 37% das tentativas de execução por injeção letal falharam nos Estados Unidos. Durante a tentativa contra Pike, os braços dela sofreram queimaduras e ficaram cobertos de bolhas.

Ela segue internada e algemada à cama do hospital, com prognóstico incerto, segundo a equipe jurídica dela.

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O Tennessee pode tentar executá-la de novo?

Juridicamente, talvez sim. O precedente mais próximo tem quase 80 anos: em 1946, a cadeira elétrica falhou ao tentar matar Willie Francis, um adolescente de 17 anos, na Louisiana.

A Suprema Corte dos EUA decidiu, em 1947, que uma execução malograda por acidente não impede uma nova tentativa legal, e não configura pena cruel nem dupla penalização. Francis foi executado um ano depois.

Os advogados de Pike usam o argumento oposto: dizem que a execução malsucedida já equivale a tortura, violando a 8ª Emenda da Constituição americana, que proíbe punições cruéis e incomuns. O Tennessee ainda não disse se vai tentar de novo.

O caso também expõe uma advertência ignorada: os advogados de Pike já haviam avisado à Justiça, antes da execução, que ela tinha veias frágeis e um distúrbio sanguíneo que tornariam o procedimento arriscado.

A execução seguiu mesmo assim. O governador do Tennessee, Bill Lee, pausou as execuções do estado pelo resto de 2026 e pediu uma revisão independente do protocolo.

A pausa já afeta a execução de Gary Wayne Sutton, marcada para 3 de dezembro — o próximo nome na fila que o caso de Pike interrompeu.

O ponto em aberto

Uma execução que falha duas vezes seguidas, numa pessoa cujas veias frágeis já tinham sido sinalizadas como risco, aponta para um problema de protocolo, não para um imprevisto isolado.

A pergunta que o caso deixa é até onde um precedente de 1947, de uma Corte que validou a execução de um adolescente de 17 anos, ainda serve de base para decidir o que acontece com Christa Pike em 2026.