O presidente Lula (PT) teve queda no percentual de votos nos municípios mais dependentes do Bolsa Família neste 1º turno das eleições, de domingo (4/10). Segundo levantamento do UOL, o apoio ao petista nessas cidades caiu para 68,7%, ante 71,5% no levantamento anterior.

Os candidatos da família Bolsonaro tiveram movimento oposto nesses municípios. De 2022 para 2026, Jair e Flávio Bolsonaro (ambos do PL) passaram de 23,5% para 27,3% dos votos no mesmo grupo de cidades.

O UOL cruzou os votos de todos os candidatos presidenciais nas últimas três eleições com a população de cada município e o número de beneficiários do programa, hoje Bolsa Família e antes Auxílio Brasil.

Município "altamente dependente" é aquele com 50% ou mais da população recebendo o benefício.

A reportagem usou dados de beneficiários de agosto de 2026, os últimos disponíveis até o domingo da votação.

O próprio levantamento não estabelece uma relação de causa entre o Bolsa Família e o voto: mostra apenas o resultado diferente em cada tipo de município.

Em 2026, as cidades de alta dependência do programa responderam por 14,4% dos votos válidos no país. As de baixa dependência, por 59,1%.

Por que o governo reajustou o benefício antes da eleição?

O governo elevou o piso do Bolsa Família em 15,04% pelo INPC, anunciado em 17 de setembro, 17 dias antes do 1º turno. O valor mínimo subiu de R$ 600 para R$ 691, e a média estimada passou a R$ 777.

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O deputado Zé Trovão (PL-SC) apresentou representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o reajuste, com base no artigo 73 da Lei Eleitoral, que proíbe a distribuição de benefícios pela administração pública em ano eleitoral fora de programas já em execução orçamentária.

"A discussão não está relacionada aos direitos das famílias dependentes do programa, mas sim ao uso de vasta política pública exatamente antes de o eleitor escolher seus representantes", argumentou Trovão no pedido.

O ministro André Mendonça, relator do caso no TSE, rejeitou a ação por entender que o parlamentar não tinha legitimidade para apresentá-la. Flávio Bolsonaro se distanciou do questionamento, dizendo se tratar de iniciativa de aliados sem sua autorização.

A disputa repete uma polêmica de 2022. Naquele ano, Jair Bolsonaro reajustou o Bolsa Família (então Auxílio Brasil) em 50% pouco antes do pleito, medida apelidada de "PEC Kamikaze" e depois julgada inconstitucional pelo STF.

Agora é a oposição que invoca o precedente, com os papéis invertidos. O reajuste deste ano também gerou debate sobre seu efeito real no poder de compra das famílias beneficiárias.

O que mais aparece nos números do UOL

Os dados indicam aumento da polarização entre petistas e bolsonaristas e queda da votação nos demais candidatos. Nos municípios de alta dependência do Bolsa Família, os outros nomes somavam 17% dos votos em 2018, caíram a 5,04% em 2022 e foram a 4% neste ano.

A mesma tendência aparece nas cidades de média e baixa dependência do programa, aponta o levantamento.

O resultado nacional confirma a polarização: com 99,99% das urnas apuradas, Flávio tinha 47,03% dos votos (56,1 milhões) e Lula, 45,16% (53,8 milhões), em uma eleição que teve a maior abstenção já registrada no 1º turno, de 21,8%.

O que acontece agora

Flávio Bolsonaro e Lula disputam o 2º turno em 25 de outubro. Os novos valores do Bolsa Família começam a ser pagos entre 19 e 30 de outubro, conforme o NIS do beneficiário, período que inclui a data da votação.