O presidente Lula disse nesta quinta-feira (1º) que pode aplicar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos se as negociações sobre o tarifaço de Trump fracassarem. Em entrevista ao podcast Flow, disse que o Brasil ainda não acionou o mecanismo.

O tarifaço começou em 22 de julho, quando os EUA impuseram tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Dois dias depois, uma sobretaxa de 12,5% elevou a taxação para 37,5%. Washington citou o Pix, o etanol e o desmatamento na Amazônia entre as justificativas.

O governo americano alegou prejuízo comercial para justificar as tarifas. Mas os Estados Unidos acumulam superávit de US$ 415 bilhões na troca de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, segundo Lula.

"Trump sabe que nós temos coisas estratégicas que eles precisam. Eu ainda não coloquei em prática a lei da reciprocidade", disse Lula, na entrevista ao Flow.

Ele sabe que, na hora que a gente colocar a lei da reciprocidade, eu vou jogar do mesmo jeito que ele jogou.

Como moeda de troca, Lula citou o nióbio: 60% do minério importado pelos Estados Unidos vem do Brasil, segundo o presidente. É esse tipo de dependência que, segundo ele, dá ao Brasil margem para não ceder primeiro na negociação.

O presidente não citou prazo para a decisão.

A fala ecoa a crítica que Lula fez na semana passada ao tom de Trump nas negociações.

Ele repete a cautela que já tinha mostrado em 21 de setembro, quando disse preferir segurar a lei e apostar em acordo, na Assembleia Geral da ONU em Nova York.

Para compensar a queda no comércio com os EUA, Lula disse que o governo ampliou os embarques para China, Indonésia, Alemanha e Vietnã, e que o país fechou o período com superávit comercial de US$ 80 bilhões, apesar do tarifaço.

O que já mudou no comércio com os EUA

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 9% no ano, segundo Lula, ou 13% conforme dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) no primeiro semestre de 2026. As importações americanas vindas do Brasil recuaram 8,5% no mesmo período.

A queda mostra como a fatia americana no comércio exterior brasileiro encolheu desde o início do tarifaço, mesmo com o esforço do governo para evitar a reciprocidade.

O que acontece agora

A disputa segue dois trilhos. Na Organização Mundial do Comércio, o prazo de 60 dias entre Brasil e EUA passou a correr em 25 de setembro. Paralelamente, os dois países criaram nesta quinta-feira um grupo de trabalho para negociar o fim do tarifaço de 37,5%.