Uma suspeita de esquema de diplomas de mestrado e doutorado da Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS), sediada no Paraguai, atingiu brasileiros de vários estados e teria causado prejuízos de até R$ 40 mil por aluno, segundo investigações no Brasil e no Paraguai e reportagem do Fantástico. Apontado pela investigação como responsável, o brasileiro Ismael Fenner está em prisão domiciliar em Assunção e foi indiciado pela Polícia Federal.

Fenner nega irregularidades. Em nota, ele disse ser alvo de perseguição de empresários do setor educacional e afirmou disputar na Justiça a propriedade do ISICS, instituição paraguaia cujo nome, segundo a apuração, ele teria usado sem autorização. A defesa dele reconheceu que os direitos sobre essa instituição estão suspensos. O indiciamento é conclusão de investigação policial e não equivale a acusação formal aceita pela Justiça nem a condenação.

"A FICS, o Fenner, precisa ser responsabilizada pelas pessoas que eles destruíram a vida", disse uma das vítimas ao Fantástico.

A investigação foi detalhada em reportagem do Fantástico publicada nesta segunda-feira (10). Segundo o Ministério Público do Paraguai, a FICS não tem registro no Conselho Nacional de Ensino Superior do país e, portanto, não poderia emitir os títulos que anunciava.

No Brasil, de acordo com a apuração, intermediários promoviam os cursos em áreas como educação, direito e saúde. Um deles, segundo a reportagem, se apresentava como professor e representante de uma assessoria acadêmica no Ceará e garantia o reconhecimento dos diplomas. Nenhum dos intermediários citados na apuração foi formalmente acusado até a publicação desta matéria.

As aulas eram online, em português, com encontros semanais.

Para validar o título no Brasil, os alunos precisavam viajar ao Paraguai. A maioria foi apenas uma vez, segundo as investigações.

Em uma operação num hotel de Assunção, durante uma apresentação de teses, promotores paraguaios encontraram cerca de 300 brasileiros no local.

O prejuízo para os alunos

Uma aluna entrevistada pelo Fantástico afirmou ter gasto R$ 23 mil em um mestrado em neuropsicologia.

Outra relatou prejuízo superior a R$ 40 mil. Ela concluiu o curso, validou o diploma e depois perdeu o reconhecimento do título.

A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) cancelou 218 diplomas ligados à FICS, alegando ter sido induzida a erro por documentos falsificados.

Até a apuração do Fantástico, porém, a plataforma Carolina Bori, usada para revalidação de diplomas estrangeiros, ainda registrava mais de 800 títulos da faculdade reconhecidos por outras instituições brasileiras.

Na Paraíba, investigadores apuram se servidores públicos usaram os diplomas para obter progressão funcional e aumento de salário.

Não é um caso isolado

O Fantástico apurou que ao menos outras 13 faculdades estrangeiras, a maioria nos Estados Unidos, prometem diplomas de pós-graduação a brasileiros de forma parecida com a da FICS.

O Ministério da Educação informou que acompanha o caso pela plataforma Carolina Bori e notifica as universidades, mas afirmou que medidas administrativas dependem da conclusão das investigações.