Pacientes de Minas Gerais viajam até 12 horas, entre ida e volta, para uma única consulta médica em Belo Horizonte. A rotina expõe as desigualdades no acesso a serviços de saúde num estado de dimensões continentais, às vésperas da eleição para governador em 2026.
O aposentado Carlos Roberto da Mata mora em Ipanema, no Leste de Minas, a 360 quilômetros de BH, e há 12 anos viaja para a capital para tratar sequelas de um câncer.
É cansativo. Saio de lá meia-noite e chego aqui 6h30 da manhã.
A vendedora Fátima Magalhães acompanha o marido nas viagens. A van da prefeitura só retorna a Ipanema depois do atendimento médico de todos os pacientes a bordo.
"A gente chega às vezes de madrugada em casa, porque outros pacientes precisam ser atendidos mais tarde. É muito longe, tem que deixar tudo para acompanhar", disse Fátima.
Em Belo Horizonte, a região hospitalar virou um "ponto de encontro" de ambulâncias vindas de municípios de todo o estado. O governo estadual responde por cirurgias, transplantes, tratamentos oncológicos, leitos de UTI e hemocentros.
A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais administra 14 hospitais: nove na Grande BH e cinco no interior.
Para Monique Félix, especialista em gestão de serviços de saúde da UFMG, o mais urgente não é só ampliar hospitais regionais: é reforçar a atenção básica nos municípios.
"O mesmo hospital é habilitado, por exemplo, em oncologia, em cardiologia, em neuro. E, no final das contas, ele não tem estrutura física, quantitativo de leitos necessário para atender todas as especialidades", afirmou Monique. "Isso sobrecarrega, inclusive, o sistema de transporte do próprio município."
O problema se repete no saneamento: mais de 5 milhões de mineiros vivem sem coleta de esgoto, segundo o Trata Brasil, e o estado teve o maior número de internações do país ligadas a saneamento precário em 2024, com 47,6 mil casos.
Estudos da área apontam que cada real investido em saneamento economiza cerca de quatro reais em saúde.
Já a Agência Minas Gerais, órgão do governo estadual, informa que 87% da população urbana do estado já é atendida com coleta regular de esgoto, retrato mais positivo que expõe a distância entre a média urbana e as áreas ainda descobertas.
O que acontece agora
A eleição para governador de Minas Gerais acontece em outubro de 2026, e quem assumir o Palácio da Liberdade em 2027 herda esses gargalos. Nenhuma proposta específica de saúde havia sido detalhada pelos candidatos até a publicação desta matéria.
A TV Sim já mostrou como o turismo entrou no debate eleitoral em Minas; a saúde é outro ponto sensível que ainda espera resposta detalhada dos candidatos.





























