A Polícia Federal identificou o servidor da Justiça Federal Jackson Cozendey como o responsável por vazar, mediante pagamento, a decisão sigilosa que autorizava a operação contra a quadrilha que desviou pelo menos R$ 45 milhões de clientes da Caixa Econômica Federal — muitos deles beneficiários do FGTS e do auxílio emergencial, segundo reportagem do Fantástico divulgada nesta segunda-feira (3).

Segundo a investigação, muitos dos prejudicados ficaram sem dinheiro para despesas básicas: a PF afirma que houve casos de pessoas que deixaram de comprar remédios e até alimentos depois de terem as contas invadidas, enquanto o valor desviado era usado para manter um estilo de vida luxuoso e ocultar patrimônio.

Como o esquema funcionava

A PF identificou dois núcleos de atuação. Em São Paulo, o casal Matheus Casado Natário e Isabely Alves de Sousa coordenava as fraudes e obtinha acesso às contas das vítimas; eles criaram uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas e mantinham parte dos recursos em criptomoedas para dificultar o rastreamento. No Rio de Janeiro, a investigação aponta Jader Henrique Areas de Almeida como o chefe da organização, responsável por definir a data dos golpes e distribuir os dados das vítimas; Enzo Grillo Filho é apontado como o operador financeiro do grupo. A partir da análise de celulares dos investigados, a PF encontrou uma cópia da decisão sigilosa que autorizava a operação contra a própria quadrilha — o documento só poderia ter sido acessado por juízes, investigadores ou servidores da Justiça Federal. Refazendo o caminho do arquivo, a PF chegou a Jackson Cozendey, servidor que não tinha motivo funcional para consultar o processo; os registros indicam que o acesso partiu da conexão de internet do escritório de advocacia onde trabalha a esposa dele, Gabrielle Cozendey, que declarou renda mensal de R$ 5,2 mil, mas movimentou R$ 1,74 milhão em seis meses, segundo a PF. A corporação afirma que houve atuação coordenada de três servidores para fazer a decisão sair da Justiça.

O que dizem as defesas

A defesa de Jackson Cozendey e de Gabrielle Cozendey afirma que eles não têm qualquer vinculação com os fatos apurados no processo. As defesas de Matheus Casado Natário, Isabely Alves de Sousa e Jader Henrique Areas de Almeida não responderam ao contato do Fantástico, que também não conseguiu falar com os advogados de Enzo Grillo Filho. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal não quiseram gravar entrevista; segundo o Fantástico, os dois órgãos pedem à Justiça Federal novos mandados de busca e apreensão para serem cumpridos dentro da própria Justiça. Procurado, o Tribunal Regional Federal não se pronunciou sobre a investigação.