A Polícia Federal indiciou nesta quinta-feira (6) 16 funcionários e ex-funcionários da Voepass pela queda do avião que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. O laudo de 200 páginas aponta que a tripulação ignorou alertas de falha no sistema de degelo da aeronave e não seguiu o procedimento para evitar a formação de gelo nas asas. O indiciamento é uma conclusão da autoridade policial e não equivale a condenação: cabe ao Ministério Público Federal decidir se apresenta denúncia, e eventual responsabilidade só pode ser reconhecida ao fim de processo judicial.
Conforme o relatório final apresentado pela Polícia Federal, está entre os indiciados o ex-chefe dos pilotos da companhia, Rafael Gimenez Rodrigues, além de outros integrantes da administração da Voepass. A reportagem procurou a Voepass e a defesa dos indiciados; até a publicação não havia manifestação, e o espaço segue aberto. O avião, um ATR 72-500 que fazia o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), caiu em uma área residencial de Vinhedo em 9 de agosto de 2024, matando os 58 passageiros e os 4 tripulantes a bordo.
O que o laudo da PF aponta
Segundo o relatório, os peritos mapearam falhas no sistema de degelo pneumático da asa em pelo menos 16 voos da mesma aeronave realizados antes do acidente, com ciclos repetitivos de acionamento e desligamento do equipamento em intervalos muito curtos. O documento registra que uma válvula do sistema teria sido removida em julho de 2024 sem registro correspondente de reinstalação, e que nenhuma dessas falhas constava no livro técnico do avião. No voo imediatamente anterior ao acidente, o alerta AIRFRAME FAULT — que indica falha no degelo da estrutura — soou 8 vezes. O manual do fabricante determina que, nessa condição, a tripulação deve deixar imediatamente a área com formação de gelo, o que os dados analisados pela PF indicam que não ocorreu. No dia da tragédia, ainda de acordo com o laudo, um alerta de baixa velocidade soou 20 segundos antes do estol, também sem intervenção registrada.
O que vem a seguir
Diferentemente da investigação técnica conduzida pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), que apura as causas do acidente sem atribuir responsabilidade criminal, o inquérito da PF busca eventuais crimes e responsabilidades individuais. Agora, cabe ao Ministério Público Federal decidir se apresenta denúncia criminal contra os indiciados — que seguem, até decisão judicial definitiva, presumidos inocentes. Segundo o site especializado em aviação Aeroin, o caso é um dos raros indiciamentos por acidente aéreo no Brasil — o precedente mais próximo é o voo Gol 1907, de 2006, quando pilotos americanos foram indiciados junto com controladores aéreos militares.


























