Psicólogos vêm chamando de "boreout" o sofrimento psicológico causado pelo tédio crônico no trabalho, o oposto do burnout, que é provocado pelo excesso de demandas. A condição ainda não é reconhecida como diagnóstico clínico, mas já preocupa especialistas em saúde mental.

"Existe uma condição fundamental: precisamos ser desafiados na medida adequada", explica a psicóloga Denise Milk Vargas. Quando as exigências ultrapassam os recursos da pessoa, ela adoece pelo excesso. Quando ficam muito abaixo da capacidade dela, vêm o tédio, a desmotivação e a perda de significado.

O trabalho ocupa espaço importante na construção da identidade e da autoestima. Quando o profissional percebe que suas capacidades estão sendo desperdiçadas, e que sua contribuição não faz diferença, pode surgir um processo progressivo de sofrimento emocional.

O que causa o boreout?

Entre os fatores mais comuns estão atividades repetitivas demais, falta de desafios compatíveis com a capacidade do profissional, ausência de perspectiva de crescimento e gestores que não definem objetivos claros para a equipe.

Existe uma diferença importante entre ter uma rotina tranquila e sentir-se profissionalmente esvaziado.

resume Vargas, ao distinguir o tédio saudável, de quem tem uma rotina estável, do esvaziamento que caracteriza o boreout.

O problema não está em trabalhar menos, segundo a psicóloga, mas em permanecer por longos períodos numa atividade sem perspectiva de mudança. É essa sensação de estagnação, mais do que a carga de trabalho em si, que caracteriza o quadro.

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Quantos trabalhadores sentem isso no Brasil?

Não existe, até agora, uma pesquisa brasileira que meça diretamente o boreout. Levantamentos relacionados, porém, mostram o tamanho do desengajamento: segundo a consultoria Gallup, 7 em cada 10 trabalhadores brasileiros estão desengajados no trabalho.

Um estudo da plataforma Udemy, de 2023, encontrou números parecidos: 43% dos entrevistados disseram se sentir entediados no trabalho, e 15% afirmaram que esse tédio crônico já afeta diretamente a própria produtividade.

Já uma pesquisa da empresa de engajamento Pulses, com mais de 3 mil profissionais em 2022, mostrou 54% dos entrevistados frustrados com o trabalho — número bem acima dos 32% que a ISMA-BR associa ao burnout, quadro oposto ao boreout.

O que acontece agora

Desde setembro, está em vigor a NR-1 sobre saúde mental no trabalho, que obriga empresas a mapear riscos psicossociais, categoria em que o boreout se encaixa, mesmo sem diagnóstico clínico formal.

O tema ganha espaço justo quando os afastamentos por saúde mental no trabalho caem 13% no semestre, na direção oposta à do desengajamento medido pelas pesquisas internacionais.