Carregar um pé de coelho, uma moeda no bolso ou sempre a mesma caneta em provas são rituais que atravessam culturas, e aparecem no esporte, no palco e no escritório. Pesquisas de universidades da Europa e dos EUA associam o costume à redução da ansiedade.
A incerteza é o gatilho mais citado pelos pesquisadores. Richard Wiseman, professor de psicologia da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, sustenta que as pessoas ficam supersticiosas ao enfrentar situações de desempenho imprevisível, como as de atletas e atores.
O mecanismo se conecta ao efeito do estresse no cérebro, já estudado pela psiquiatria.
Por que a incerteza ativa o amuleto?
Michael Jordan usava, por baixo do uniforme da NBA, o calção da equipe da universidade. Uma camisa sua do "Last Dance" foi vendida por recorde de US$ 12,26 milhões.
Fora das quadras, o mecanismo se repete em provas, entrevistas e consultas. Segundo o psicólogo Bruno dos Santos, da UNINASSAU, as pessoas tendem a se sentir mais tranquilas ao seguir tradições e rituais conhecidos, porque acreditam ter feito algo para garantir um bom desfecho.
O antropólogo Dimitris Xygalatas, da Universidade de Connecticut (EUA), explica que as pessoas procuram padrões o tempo todo e tendem a tratar coincidência como causa. Quem estreia uma camisa e vê o time vencer pode repetir a escolha no jogo seguinte.
É o chamado pensamento mágico.
Se a vitória se repete, a peça "vira" camisa da sorte, mesmo com tudo diferente entre uma partida e outra. Há um viés de memória. As pessoas lembram do amuleto quando o resultado é bom, e culpam outro fator, como o árbitro, quando é ruim.
O amuleto realmente melhora o desempenho?
A resposta científica é mais complicada do que a crença popular sugere. Um estudo de 2010 dos psicólogos Lysann Damisch, Barbara Stoberock e Thomas Mussweiler testou o efeito direto de uma "bola de sorte" no golfe.
Os participantes tentaram dez tacadas de 100 cm de distância. Quem ouviu que a bola "até agora tem se mostrado uma bola de sorte" acertou 65% dos putts, contra 48% do grupo de controle, que recebeu a bola sem menção à sorte.
Réplicas de alta precisão feitas depois não confirmaram o resultado. Participantes informados de que tinham uma bola de sorte tiveram desempenho quase idêntico ao do grupo de controle, o que gerou críticas ao estudo original.
Para Xygalatas, o ganho está numa sensação de controle que, mesmo ilusória, ainda pode ser reconfortante. Em 2014, uma estátua de Julieta, personagem de Shakespeare, precisou ser trocada em Verona pelo desgaste de visitantes que a tocavam em busca de amor.






























