Dezenas de milhares de pessoas protestaram em Madri e outras cidades da Espanha neste sábado (3), um dia depois de o Parlamento rejeitar os dois decretos do governo contra a crise habitacional. Cerca de 70 mil participaram do ato na capital, segundo o governo espanhol.

"É uma vergonha. Isso só prova que somos nós, o povo, que temos de nos adaptar aos partidos políticos, e não os políticos ao que o povo quer. E isso não pode continuar assim", disse Nando de Anguulo, de 26 anos, em Madri.

O despejo que virou símbolo da crise

Os protestos ganharam força depois do despejo de Maricarmen Abascal, moradora de Madri desde 1956. O apartamento dela foi comprado por um fundo de investimento em 2018, que tentou reajustar o aluguel em 275%.

O caso gerou acampamentos em Madri e outras cidades.

O preço do imóvel usado na Espanha subiu 11,8% no terceiro trimestre de 2026 ante um ano antes, segundo o portal Idealista, a apenas 3 euros do recorde histórico atingido em julho.

A alta não é uniforme: Sevilha lidera o ranking de grandes cidades, bem à frente de Bilbao e Alicante. Barcelona e Valência, que concentram boa parte dos protestos, têm alta mais moderada.

O que os decretos rejeitados previam

O primeiro decreto caiu por 178 votos contra 172; o segundo, minutos depois, por 184 a 166. Juntos, previam proteção a inquilinos vulneráveis até 2030 e renovação automática de contratos por dois anos.

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O pacote também previa proibir fundos de investimento de comprar imóveis por menos de 70% do preço de mercado até 2028, e elevar de 15% para 25% o imposto sobre os lucros não distribuídos desses fundos.

É o mesmo pacote que, semanas antes de cair no Congresso, já rendia comparação internacional: a TV Sim mostrou como a Espanha travava despejos enquanto Portugal os acelerava.

A pressão sobre plataformas de aluguel por temporada também cresce fora da Espanha, a ponto de o próprio CEO do Airbnb reconhecer a necessidade de mais regras em cidades com crise de moradia.

O ponto em aberto

Com a derrota no Congresso, Pedro Sánchez avalia convocar eleições antecipadas para novembro. Ele vinha observando a intensidade dos protestos de sábado antes de decidir, e o gabinete dele não quis comentar as informações.

Do outro lado, o Sindicato dos Inquilinos ameaça convocar uma greve geral após negociação com outros sindicatos. No Brasil, o debate sobre como ampliar o acesso à moradia também segue aberto, embora sem o mesmo nível de confronto político visto em Madri.