Dois suspeitos de matar o cabo da PM Paulo Roberto Lima Pereira foram mortos pela Polícia Civil nesta sexta-feira (2/10), em confronto no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Os dois tinham mandado de prisão temporária em aberto pelo latrocínio do policial, em agosto.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), investigadores da Deic foram ao local cumprir os mandados e "foram recebidos a tiros". Os dois suspeitos foram atingidos e morreram no local; nenhum agente ficou ferido.

As identidades dos dois mortos não foram divulgadas pela SSP. O cabo Paulo Roberto foi morto a tiros na Marginal Tietê, quando parou o carro para verificar um pneu e foi abordado por três assaltantes.

O caso de hoje é exceção ou faz parte de um padrão?

Não é exceção. São Paulo soma centenas de mortes por intervenção policial todo ano, num número que sobe desde 2023. Em 2025, foram 703 mortes no estado, mais que o dobro do registrado em 2023.

Mortes decorrentes de intervenção policial em São Paulo — série 2019-2025, SSP-SP
AnoMortes
2019720
2022262
2023357
2024653
2025703

Entre 2019 e 2022, o número caiu 63,6%. A partir de 2023, a curva inverteu: subiu 95 casos sobre o ano anterior, depois 83% em 2024, e seguiu em alta em 2025.

Em 2026, o ritmo não deu trégua: foram 142 mortes só no primeiro trimestre, cinco a mais que no mesmo período de 2025, segundo o Ministério Público estadual.

De janeiro a abril, 241 pessoas morreram em ações policiais no estado, alta de 3,4% sobre 2025. Das vítimas, 53,5% eram negras, e 154 tinham entre 13 e 35 anos.

Para o ouvidor da Polícia de SP, Mauro Caseri, "segurança pública eficaz reduz a violência e preserva vidas". A ausência de políticas de saúde mental e de mecanismos de responsabilização das forças, segundo ele, ajuda a explicar a letalidade alta.

O pesquisador Almir Felitte atribui parte da alta a uma mudança de estratégia da gestão estadual, liderada pelo governador Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição em São Paulo.

Segundo ele, o estado adotou o que chama de "narrativa de dominação territorial", usada antes no Rio de Janeiro.

As mortes por intervenção policial já respondem por 22% a 23% de todas as mortes violentas do estado. Pesquisadores da área consideram abusivo o patamar acima de 7% a 10%.

O peso das mortes policiais no total de mortes violentas do estado já passou do que a própria literatura da área trata como limite aceitável.

Como a política tenta reduzir a letalidade?

O uso de câmeras corporais como ferramenta para reduzir a letalidade virou tema de campanha em outros estados. Em Goiás, o candidato Caiado rejeita o equipamento e promete cortar gastos públicos.

Em Minas Gerais, o tema também divide os candidatos ao governo do estado, com posições opostas sobre obrigar o uso do equipamento pelas forças.

O que esse padrão deixa em aberto

O confronto desta sexta terminou como a maioria dos casos registrados pela SSP, sem ferimento entre os agentes. A série histórica levanta uma pergunta estrutural, não sobre este caso específico.

Por que a letalidade das operações policiais em São Paulo voltou a subir depois da queda registrada até 2022? E o que isso diz sobre o treinamento e os protocolos de abordagem das forças do estado?