Adesivos vendidos nas redes sociais com a promessa de aumentar a dopamina, melhorar o humor ou dar mais clareza mental não têm respaldo científico suficiente, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo. As empresas dizem que funcionam como os de nicotina.
Os cientistas, porém, apontam diferenças cruciais entre os produtos.
"A administração transdérmica de medicamentos é uma ciência de verdade", diz Igor Koturbash, professor e codiretor do Centro de Pesquisa de Suplementos Alimentares da Universidade de Ciências Médicas do Arkansas.
"Mas isso não significa que qualquer outro composto possa ser administrado com sucesso por meio da pele", completa.
O mercado de adesivos de bem-estar está em expansão, com dezenas de produtos anunciados para controle de peso, concentração e energia. Ao contrário dos medicamentos, eles não passam pela mesma avaliação de segurança e eficácia da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos.

Por que o adesivo de nicotina funciona e o de dopamina, não?
Funciona quando o composto tem o tamanho molecular certo e é lipossolúvel, condição que a nicotina cumpre, mas que a maioria dos extratos de plantas e aminoácidos usados nos adesivos de bem-estar não atende.
A pele age como uma barreira seletiva, com uma estrutura semelhante à de tijolos e argamassa, formada por células e gorduras, explica Nicole K. Brogden, professora de ciências farmacêuticas da Universidade de Iowa. Poucas moléculas conseguem atravessá-la até a corrente sanguínea.
Publicidade
Há outro obstáculo específico para a dopamina: mesmo que a substância chegasse ao sangue, ela não atravessa a barreira hematoencefálica, a membrana que protege o cérebro. Ou seja, dopamina circulando no corpo não chega ao órgão para alterar o humor diretamente.
O benefício real dos adesivos, quando funcionam, é a liberação lenta e contínua do composto. O método evita o sistema digestivo e reduz efeitos colaterais gastrointestinais, diz David Kroll, professor de farmacologia da Universidade do Colorado Anschutz.
A lista de medicamentos transdérmicos aprovados pela FDA inclui, além da nicotina, tratamentos para a doença de Parkinson, o TDAH e a dor.
O que os reguladores já decidiram sobre o produto
A Advertising Standards Authority (ASA), reguladora de publicidade do Reino Unido, decidiu contra a empresa Kind Patches em fevereiro deste ano. O anúncio prometia que o adesivo ajudava a "manter a clareza mental" e "reduzir o estresse do dia a dia".
A ASA concluiu que as evidências clínicas apresentadas pela empresa testaram os ingredientes tomados por via oral, em doses muito maiores que as entregues pelo adesivo, e não a entrega pela pele nas doses reais do produto.
Depois da decisão, a empresa trocou o nome do item para "Mood+ Patches", sem a palavra dopamina.
O que acontece agora
A fiscalização de suplementos segue mais frouxa que a de remédios no Brasil e nos Estados Unidos. Isso já levou a Anvisa a proibir suplementos com substâncias escondidas na fórmula em casos anteriores.
Até o momento, nenhum adesivo de dopamina recebeu aprovação de agências regulatórias para as alegações que faz.





























