O escritor escocês Irvine Welsh, autor de "Trainspotting" (1993), disse à Folha de S.Paulo que o celular tornou tudo viciante para os jovens, do mesmo jeito que a heroína definiu a geração do seu romance de estreia, nos anos 1980.

"É como se tudo fosse viciante agora. O celular é um canal de acesso para todos os vícios que podemos querer: apostas, sexo, drogas, comida", disse o autor.

Para Welsh, até hábitos saudáveis viraram parte do mesmo padrão. "Tudo de um jeito compulsivo, obsessivo, até o que faz bem, como o exercício físico. Os algoritmos estão nos destruindo, e a internet, destruindo nossa cultura", afirmou.

Welsh lança agora no Brasil o livro "Homens Apaixonados", que retoma os personagens de "Trainspotting": os amigos Spud, Sick Boy, Begbie e Renton, jovens da classe trabalhadora escocesa que adotaram a heroína como estilo de vida em meio à falta de perspectiva dos anos 1980.

Para o autor, o livro original segue atual porque a juventude de hoje enfrenta os mesmos problemas de três décadas atrás: desemprego e vício.

"Esses caras estavam experimentando o desemprego pela primeira vez. Agora somos todos membros do precariado", resumiu Welsh.

O retrato que Welsh faz do Reino Unido tem eco no mercado de trabalho brasileiro. O desemprego no país está na menor taxa desde 2012, mas 40% da mão de obra segue na informalidade, sem carteira assinada ou CNPJ.

Parte dessa informalidade vem do trabalho por aplicativo, que cresceu 37% em três anos no país, mas paga 12% menos por hora do que o emprego formal equivalente. O mesmo vício em celular que Welsh descreve já é tema de orientação de especialistas no Brasil.

O recuo recente do desemprego no Brasil, que caiu a 5,3% mesmo com os juros em patamar alto, já havia sido registrado pela TV Sim Brasil no mês passado.

Welsh também criticou o uso da inteligência artificial para substituir o pensamento próprio. "Se você terceirizar seu pensamento para uma máquina, vai acabar se tornando um idiota, basicamente", disse.