O plano de governo de Lula (PT) para 2026 dedica mais espaço à cultura do que os dos outros quatro candidatos mais bem colocados no Datafolha, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. A reportagem comparou os cinco planos completos, um a um.

A pesquisa Datafolha foi divulgada em 23 de setembro, contratada pela Folha de S.Paulo e pelo Grupo Globo. O instituto ouviu 2.002 pessoas entre 22 e 23 de setembro, com margem de 2 pontos, 95% de confiança e registro BR-00304/2026 no TSE.

Lula aparece com 40% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro, com 36%. Cury soma 5%, Caiado, 4%, e Renan Santos, 3% — os três tecnicamente empatados dentro da margem de erro. Na maioria dos planos, a cultura ocupa só alguns parágrafos.

O documento de Lula promete manter o Ministério da Cultura, recriado no atual mandato depois de ter sido reduzido a secretaria por Jair Bolsonaro. Promete também fortalecer a Lei Aldir Blanc e a Lei Rouanet, que captou R$ 3,41 bilhões em 2025.

O texto ainda cita o Conselho Nacional de Política Cultural e políticas para "mestras e mestres das culturas populares e tradicionais", sem detalhar as medidas. Menciona o programa Cultura Viva, de apoio a instituições sem fins lucrativos, e a expansão dos CEUs.

No mandato atual, o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) deu suporte a 6.000 bibliotecas públicas e a 144 obras de restauro de patrimônios, número que o plano de Lula usa como referência de entrega.

O que os outros quatro candidatos propõem?

Flávio Bolsonaro defende "menos concentração, mais Brasil na cultura" e diz querer aperfeiçoar, não extinguir, o mecanismo por trás da Rouanet. O plano do PL tem 76 páginas, das quais só duas são dedicadas à cultura.

Augusto Cury fala em "cultura da paz" e trata o setor como "ativo estratégico do país", sem citar números ou medidas específicas.

Ronaldo Caiado diagnostica trabalhadores da cultura em situação de informalidade e renda instável. Propõe 12 medidas, entre elas um novo Plano Nacional de Cultura com indicadores mensuráveis.

Renan Santos vai na direção oposta aos demais: quer extinguir o Ministério da Cultura e fundi-lo à Educação, formato adotado no Brasil entre 1953 e 1985. Defende redirecionar recursos da Rouanet para presídios, proposta que credita a Kim Kataguiri.

O contraste mais direto está nos números que cada plano escolhe citar. O do PL reserva duas frases ao tema num documento de 76 páginas. O de Lula é o único a informar quanto a cultura movimenta em reais.

É um padrão parecido com o que os dois planos mostram em outras áreas de governo: convergem no diagnóstico e divergem no grau de detalhe.

Nenhum dos cinco planos trata dos efeitos que o fim da escala de trabalho 6x1, hoje em debate no Congresso, teria sobre profissionais da cultura (categoria com alta informalidade, segundo o próprio diagnóstico do plano de Caiado).

O ponto em aberto

Com a cultura ausente dos discursos de campanha mais visíveis, o que fica nos planos de governo tende a ser a única promessa escrita à qual o setor poderá cobrar o eleito depois da eleição.

A pergunta que os cinco documentos deixam sem resposta é até que ponto essas poucas linhas resistem à execução orçamentária do próximo mandato.