O excesso de chuva no centro-sul atrasa a colheita da cana e os embarques nos portos. Pesquisa da Datagro, divulgada nesta sexta-feira (2), mostra que a média de cana moída por usina caiu para 76.242 toneladas na semana de 27/9, ante 105.844 toneladas em agosto.

"As chuvas afetaram bastante a moagem em setembro", disse Bruno Wanderley de Freitas, economista sênior da Datagro, à Reuters. Segundo ele, a previsão é de mais chuva nos próximos dias na região, o que deve prejudicar ainda mais a colheita.

Por que tanta cana vai ficar sem colher

A Datagro estima que cerca de 35 milhões de toneladas de cana vão ficar nos campos sem processamento neste ciclo, porque as usinas não conseguem concluir a colheita: as máquinas têm dificuldade para operar em solo encharcado.

Essa cana só será processada a partir de março do ano que vem. O El Niño costuma deixar o sul do Brasil mais chuvoso e o norte mais seco, e o risco já era apontado para a safra antes mesmo da colheita começar.

Uma estação de monitoramento mantida pela USP na região açucareira de Piracicaba registrou o inverno mais chuvoso em 110 anos de medições, o que ajuda a dimensionar o tamanho do problema para o setor.

O efeito nos portos e no preço

As chuvas acima da média também afetam as operações portuárias, segundo Michael McDougall, analista sênior do setor sucroalcooleiro e consultor da McDougall Global View. "É uma cascata de problemas decorrentes das chuvas do El Niño", disse ele.

O porto de Santos, principal ponto de embarque de açúcar do Brasil, teve que interromper as operações por pelo menos 35 dias no trimestre de julho a setembro, já que os berços de carregamento não são cobertos.

O porto de Paranaguá (PR) somou 30 interrupções no mesmo período.

Com menos açúcar embarcado e problemas de produção também na Europa e na Ásia, o preço da commodity subiu até 5% em Nova York nesta sexta-feira (2).

O que acontece agora

A colheita segue sujeita à previsão de mais chuva no centro-sul nos próximos dias. O setor, que teve resultado recorde na agricultura brasileira em 2025, vai monitorar a cana deixada no campo até o início do próximo processamento, em março.

O aperto no setor sucroalcooleiro ocorre no mesmo ano em que a Raízen vendeu uma usina de cana em Mato Grosso do Sul por R$ 705 milhões, negócio que reflete os movimentos recentes de consolidação do setor.