A Associação Internacional de Fertilizantes (IFA) alertou que choques no mercado global de fertilizantes ameaçam a produção de grãos e a segurança alimentar. O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, rota de 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados, disparou os preços.

Segundo a CEO e diretora-geral da IFA, Alzbeta Klein, a retirada de cerca de 8 milhões de toneladas de ureia do mercado internacional pode resultar numa perda de 75 milhões a 100 milhões de toneladas de trigo.

"Rotas ou origens alternativas podem oferecer alguma flexibilidade, mas é improvável que compensem totalmente uma interrupção prolongada", disse Klein.

Pelo Estreito de Ormuz também passam 30% da ureia mundial e quase metade do enxofre global, insumo usado em fertilizantes fosfatados. O preço da ureia no Golfo saltou 28,2%, segundo estimativa da IFA.

Como isso afeta o Brasil?

O Brasil importa 85% de todos os fertilizantes que aplica, o que expõe o país diretamente à crise. Desde fevereiro, os preços dispararam no mercado interno.

O agricultor brasileiro paga a crise geopolítica do outro lado do mundo na hora de comprar o insumo que mais pesa no custo da lavoura.

Estimativas do setor projetam entregas de 47,2 milhões de toneladas de fertilizantes para a safra 2026, cerca de 2 milhões de toneladas a menos que em 2025. O peso do insumo no custo total de produção deve subir de 30% para cerca de 35%.

Com o insumo mais caro, agricultores podem reduzir a taxa de aplicação para conter custos, mesmo com a rentabilidade da lavoura comprometida.

Hoje são necessárias 60 sacas de milho para comprar uma tonelada de ureia, segundo o setor.

Não é a primeira vez que a rota preocupa o setor: em junho, a TV Sim Brasil já mostrou que a retomada do transporte em Hormuz seria lenta, segundo empresa especializada.

A alta nos preços também já vinha afetando a competitividade do Brasil frente aos Estados Unidos, apontou reportagem de junho.

O impacto chega numa safra que a Conab projeta como recorde: a produção de grãos pode chegar a 366,6 milhões de toneladas em 2026.

Metade do alimento consumido no mundo depende do processo Haber-Bosch, que transforma gás natural em fertilizante nitrogenado. Por isso, um choque de energia se converte rapidamente em choque agrícola.