A Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga se comprimidos vendidos como remédio contra o câncer a um paciente de Nova Esperança do Sul são, na verdade, um doce chinês. A Operação Efeito Colateral apreendeu o material em Itajaí (SC) nesta semana.

O paciente usava a medicação havia cerca de 20 dias quando percebeu que ela não parecia fazer efeito e procurou o médico que o acompanha. No atendimento, a equipe percebeu que a cartela de uma das medicações não era compatível com o produto original.

O remédio, de uso oncológico, não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O paciente teve acesso a ele por decisão judicial, com o fornecimento feito diretamente pela importadora, sediada em Itajaí (SC).

"Na opinião dele, o remédio não estaria respondendo ao tratamento e por isso ele procurou um médico", disse o delegado Paulo de Abreu, diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) do Rio Grande do Sul.

A embalagem não apresentava irregularidade aparente, mas a cartela trazia inscrições em chinês, o que levantou suspeita sobre a origem do produto. O fabricante informado é um laboratório alemão com atuação no Brasil.

O oncologista Vinícius Lorandi, do Hospital São Lucas da PUCRS, analisou fotografias do medicamento a pedido da investigação. Ele apontou três sinais que chamaram atenção: o idioma que aparenta ser chinês, diferenças na identidade visual da embalagem e a forma de acondicionamento.

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Os comprimidos vinham em blister de alumínio, quando a medicação costuma ser vendida em frasco.

O que a Operação Efeito Colateral apurou

A Operação Efeito Colateral, deflagrada pela Polícia Civil em 7 de outubro, apreendeu documentos e o material suspeito numa empresa importadora de Itajaí (SC). A investigação é conduzida pela Delegacia de Proteção ao Consumidor, Saúde Pública e Propriedade Intelectual (DECON), ligada ao Deic.

"Mais do que uma possível fraude comercial, estamos diante de uma situação que pode colocar em risco a saúde de pessoas que dependem de um tratamento médico", declarou a delegada Milena Simioli, da DECON.

A corporação cruzou bases de dados e fontes comerciais estrangeiras e encontrou uma possível correspondência entre as inscrições da cartela e uma bala macia de sabor taro vendida na China.

Se a suspeita se confirmar, o paciente passou quase três semanas tratando o câncer com um produto sem eficácia comprovada. Não é a primeira apreensão no país. Em setembro, a Anvisa já havia determinado a apreensão de lotes falsificados de outro remédio oncológico.

A compra de remédios de alto custo por decisão judicial é cada vez mais comum no país, e também é alvo de alertas. Em nota publicada em junho, a Rede D'Or alertou que nem toda liminar de fornecimento de remédio beneficia o paciente.

Casos de golpe envolvendo remédio de alto custo também já apareceram em outros estados. Em julho, uma família de São Paulo relatou ter caído em um golpe enquanto aguardava um medicamento de R$ 1 milhão.

O que acontece agora

O material apreendido na Operação Efeito Colateral segue em perícia, que vai determinar a composição real do produto. A investigação, sob sigilo, também apura a cadeia de importação e distribuição a partir dos documentos apreendidos na empresa de Itajaí (SC).