A Justiça dos Estados Unidos reconheceu, nesta segunda-feira (28), a recuperação judicial da Ambipar, em curso no Rio de Janeiro, como processo estrangeiro principal e suspendeu o Chapter 11 da subsidiária americana do grupo, que soma dívidas de R$ 10,7 bilhões.

A decisão foi da Corte de Falências dos Estados Unidos para o Distrito Sul do Texas, em Houston.

Segundo a corte, o centro dos principais interesses das empresas do grupo está no Brasil. Isso qualifica a 3ª Vara Empresarial do Rio como jurisdição competente para conduzir a reestruturação.

O pedido de reconhecimento pelo chamado Chapter 15, mecanismo da lei americana para coordenar falências internacionais, havia sido protocolado em 9 de julho. Com a decisão, a reestruturação da Ambipar fica concentrada no processo brasileiro, com o aval da Justiça americana.

Como a Ambipar chegou a essa crise?

A Ambipar é um grupo brasileiro de gestão ambiental e resposta a emergências, fundado em 1995 por Tércio Borlenghi Junior, hoje presidente do conselho. A empresa cresceu por meio de cerca de 42 aquisições e expansão internacional na última década.

A crise de confiança começou após o resultado do 2º trimestre de 2025, quando a auditoria da Deloitte apontou que, do caixa de R$ 4,7 bilhões declarado pela companhia, R$ 2 bilhões estavam alocados em um fundo de recebíveis (FIDC).

O grupo pediu recuperação judicial em outubro de 2025. O colapso também foi agravado por perdas com títulos verdes ("green bonds") e complicações em contratos de câmbio com o Deutsche Bank.

A empresa é hoje um dos vários grandes grupos brasileiros que recorreram à recuperação judicial na atual onda de reestruturações, ao lado de nomes como Casas Bahia e Habib's.

Nem todo caso termina em colapso: a Light saiu da recuperação judicial em setembro e reduziu a dívida líquida à metade.

Diferentemente da Casas Bahia, que pediu recuperação com dívida de R$ 17,3 bilhões, ou do Habib's, endividado em R$ 265,2 milhões, a crise da Ambipar tem origem numa dúvida contábil sobre o próprio caixa da empresa.

O que acontece agora

Desde 31 de agosto, as ações da Ambipar (AMBP3) não negociam no pregão regular da B3. A bolsa suspendeu a negociação contínua porque a empresa não publica resultados trimestrais desde o 2º trimestre de 2025, mais de um ano de atraso.

As ações agora operam em regime de leilão durante toda a sessão, com negócios fechados só ao fim de cada pregão. O papel, que já valeu R$ 268, era cotado a R$ 0,17 na semana passada.

O reconhecimento americano resolve a frente da dívida, mas não a da regularidade das informações ao mercado: a volta ao pregão normal da B3 depende da Ambipar publicar os balanços atrasados, o que a empresa ainda não fez.