José Esteves da Silva, 68 anos, está internado no Hospital Regional de Planaltina (DF) desde julho de 2025, vítima de maus-tratos, com as pernas amputadas e um braço sem movimento. Recebeu alta médica há um ano e segue internado por não ter para onde ir.
O advogado que representa José, João Darcs, afirma que os familiares nunca o visitaram. "Ele não quer mais permanecer no hospital, não é a vontade dele. Ele chorava muito", contou à TV Globo.
"Ele tem vontade de assistir a TV dele, tem vontade de ter um local", completou o advogado.
O caso começou a ser investigado pela Polícia Civil depois que uma agente de saúde da UBS do Buritis, em Planaltina, encontrou José sozinho. Segundo o inquérito, ele morava em um barraco nos fundos de um lote, sem higiene ou alimentação adequadas.
O cômodo onde José vivia tinha "apenas uma cama, uma televisão e um balde para fazer as necessidades", registrou a polícia.
O que diz a investigação sobre o filho
Carlos Pereira da Silva, de 42 anos, filho de José, é denunciado pelo Ministério Público por suspeita de maus-tratos. A denúncia foi aceita pela Justiça em setembro e corre como ação penal, sem condenação até o momento.
Segundo o MP, Carlos "submeteu-o a condições degradantes, o privou dos cuidados regulares e indispensáveis a sua saúde e integridade física e psíquica". Os procuradores afirmam que ele reteve o cartão do Benefício de Prestação Continuada (BPC-LOAS) do pai.
À TV Globo, Carlos disse não ter condições de visitar o pai todos os dias nem de pagar um cuidador. Ele afirmou ter tentado, sem retorno, uma vaga em abrigo do governo. O Ministério Público pediu R$ 10 mil em indenização pelos danos causados.
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Um hospital não é a única "casa" possível
O caso de José tem nome na gestão hospitalar: alta social, quando o paciente está clinicamente liberado, mas segue internado por falta de rede de apoio familiar. Em Bauru (SP), 28 pacientes seguiam nessa situação em outubro.
É mais do que o dobro dos 13 registrados em julho do ano passado na mesma cidade. Até 70% dos pacientes em alta social são idosos, segundo registros de gestão hospitalar de Bauru.
A ocupação prolongada desses leitos deixava 79 pessoas na fila por vaga de internação na cidade.
No Distrito Federal, o problema não é novo: em 2018, o governo local registrou 82 pessoas na fila por vaga em instituição de longa permanência, com as 229 vagas das 4 unidades públicas já ocupadas.
Casos de maus-tratos em instituições para idosos também já levaram à interdição de unidades em outros estados. A violência contra idosos é um problema maior que casos isolados.
Só em Minas Gerais, quase 1,5 mil denúncias de violência contra idosos foram registradas em 2026. No caso de José, o acesso ao BPC-LOAS, benefício que passa por mudanças de regras neste ano, é apontado pela investigação como um dos motivos do abandono.
O ponto em aberto
Enquanto a ação penal corre na Justiça, José segue internado, sem decisão sobre para onde vai.
O caso expõe uma lacuna que não é só dele: quando a família falha e o Estado não tem vaga suficiente em instituições de acolhimento, o hospital vira o único lugar disponível, mesmo sem ser pensado para isso.
Os números de Bauru e os dados do próprio DF sugerem que essa lacuna não é um incidente raro, e sim um padrão que se repete onde quer que a rede de apoio ao idoso seja medida.





























