A Real Academia Sueca de Ciências anunciou nesta semana os vencedores do Nobel 2026 em física, química e medicina, e mais uma vez nenhum premiado é brasileiro. Especialistas atribuem a ausência à instabilidade de recursos para a pesquisa no país.

O físico Francis Halzen (EUA) venceu pelo observatório de neutrinos IceCube. Os químicos Henri Kagan (França) e Kenso Soai (Japão) dividiram o prêmio por descobertas em síntese orgânica assimétrica.

Na medicina, o prêmio foi para Karl Deisseroth (EUA), Peter Hegemann e Georg Nagel, da Alemanha.

O Brasil tem cientistas indicados ao prêmio e trabalhos de destaque, mas nunca teve um vencedor. O país chega a este ano com 215 indicações acumuladas e nenhuma vitória, segundo levantamento que a TV Sim Brasil publicou nesta semana.

No Brasil, mais que qualquer coisa, falta continuidade. Há oscilações muito grandes que fazem com que a pesquisa possa começar, tenha que acabar abruptamente e depois consiga ser retomada. É razoável imaginar que esse seria um fator que limita muito a capacidade de um pesquisador brasileiro de se manter em alto nível.

A avaliação é de Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira.

O diretor científico do IDOR Ciência Pioneira, Sergio Ferreira, aponta a burocracia para importar equipamentos e reagentes como outro obstáculo. Segundo ele, a oscilação do câmbio encarece insumos de um mês para o outro, e os trâmites de importação atrasam ainda mais os experimentos.

Para o diretor-geral da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Lisandro Granville, vencer o Nobel é consequência de um sistema científico forte.

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"O Brasil já tem talentos e instituições de excelência. Com continuidade e visão de longo prazo, fortalecemos a ciência, a competitividade e a autonomia tecnológica do país", diz Granville, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

O que os números oficiais mostram

O investimento público em ciência e tecnologia avançou 30% entre 2021 e 2024, segundo o MCTI. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) cresceu 216% no mesmo período, e o aporte total em C&T chegou a R$ 88,7 bilhões em 2024.

O salto de recursos é recente e ainda não se traduziu em reconhecimento internacional. Cientistas descrevem décadas de oscilação no financiamento; o levantamento do MCTI mostra recuperação a partir de 2021. As duas leituras não se contradizem: medem períodos diferentes da mesma trajetória.

O MCTI também tem ampliado editais voltados à iniciativa privada. Em junho, o ministério e a Finep lançaram um programa de R$ 360 milhões para inovação em pequenas empresas, parte do esforço para destravar recursos represados em anos anteriores.

O que falta para o salto virar resultado

O MCTI aponta recuperação orçamentária desde 2021, mas cientistas descrevem um histórico de décadas de descontinuidade que um só ciclo de investimento não desfaz.

A pergunta que fica é se o novo patamar de recursos vai se manter por tempo suficiente para formar a geração de pesquisadores que poderia, enfim, levar o país ao Nobel.