A Síndrome do Intestino Irritável (SII) causa dor abdominal, diarreia e desconforto sem lesão identificável nos exames, segundo especialistas ouvidos pelo programa CNN Sinais Vitais com Dr. Kalil. O fenômeno tem explicação na conexão entre intestino e cérebro, que transforma estímulo recorrente em dor crônica.

A FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia) estima que a SII atinja entre 5% e 10% da população adulta, com predominância em mulheres jovens, abaixo dos 50 anos.

A dor pode se originar inicialmente por um funcionamento do intestino que não está adequado, e ela começa, por um estímulo que é recorrente, a se cronificar e começar a se localizar de maneira centralizada no cérebro.

A explicação é do psiquiatra Arthur Danila, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), dada ao CNN Sinais Vitais com Dr. Kalil.

O processo é chamado de centralização da dor. Segundo Danila, depois de um tempo o paciente pode sentir dor mesmo sem o estímulo original, à noite, por exemplo, sem ter comido nada.

"Essa dor começa a ter uma vida própria dentro do cérebro", afirmou o psiquiatra, que destacou que o fenômeno não é exclusivo da SII e ocorre em outros quadros de dor crônica.

No Brasil, a dor crônica virou prioridade de política pública: o país aprovou neste ano uma lei sobre o tema no SUS.

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Para Danila, desconsiderar a dor do paciente seria desqualificar uma experiência real. "Isso não quer dizer que a dor não existe", frisou. A síndrome tem um componente funcional gastrointestinal e um componente emocional, e tratar só um dos dois não resolve.

Reconhecer a dor como real, mesmo sem achado no exame, é o primeiro passo do tratamento segundo os especialistas.

Os sintomas podem ser confundidos com infarto?

Sim, em alguns casos. O gastroenterologista Flavio Steinwurz, do Colégio Americano de Gastroenterologia, explica que a SII pode causar distensão gasosa significativa, que eventualmente gera dor irradiando até o tórax, sintoma que lembra um infarto.

Quando a dor pede uma investigação diferente?

A dor pede investigação de outra doença quando vem acompanhada de sinais de alarme: perda de peso, sangue nas fezes, febre, vômito ou mudança brusca no padrão dos sintomas, segundo o Manual MSD. Idade acima de 45 anos também pede atenção redobrada.

Sangramento intestinal, por exemplo, é um dos sinais que exigem diagnóstico diferencial rápido, segundo especialistas.

Nesses casos, o médico costuma pedir exames de sangue, avaliação física com toque retal e, em pacientes acima de 45 anos, colonoscopia, para descartar doenças como Crohn, colite ulcerativa e câncer colorretal.

O que ajuda no tratamento?

O tratamento combina mudança na dieta, medicamentos e, em casos mais difíceis, terapia. A dieta pobre em FODMAPs (carboidratos fermentáveis) é considerada a primeira linha contra distensão e gases, segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia.

  • Antiespasmódicos e antidepressivos em dose baixa, usados para controlar a dor
  • Laxantes para quem tem prisão de ventre, ou antidiarreicos para quem tem diarreia
  • Probióticos por até 12 semanas e, em alguns casos, óleo de menta
  • Terapia cognitivo-comportamental ou hipnoterapia para os casos que não melhoram só com dieta e remédio

Hoje (10) é o Dia Mundial da Saúde Mental, data que reforça o elo entre intestino e cérebro: estudos mostram que a alimentação também pode ajudar no tratamento da depressão.