A China sustenta o boom das suas exportações com uma combinação de moeda desvalorizada e devolução bilionária de impostos aos exportadores, segundo o InfoMoney. A estratégia ajuda a explicar por que o Brasil amarga déficit recorde em manufaturados, mesmo exportando mais à própria China.

O yuan acumula queda de mais de 14% em termos ajustados pela inflação desde 2022, o que torna os produtos chineses mais baratos lá fora. No mesmo período, o superávit comercial da China quase dobrou.

Pequim também devolveu US$ 318,2 bilhões em impostos a empresas exportadoras no ano passado, o equivalente a 1,5% de toda a economia chinesa, segundo o Ministério das Finanças do país.

A meta oficial de Pequim é crescer entre 4,5% e 5% ao ano.

Manter esse ritmo pesa mais, para o governo chinês, do que o custo interno de uma moeda fraca.

Bruxelas vai à China nesta semana cobrar explicações: o déficit comercial da União Europeia com o país já passa de US$ 1,1 bilhão por dia, segundo autoridades citadas pelo InfoMoney.

Vista aérea de contêineres empilhados no Porto de Santos, principal porto do Brasil
O Porto de Santos, principal porta de entrada e saída do comércio exterior brasileiro, registrou recorde de movimentação em 2025. Foto: Divulgação/Porto de Santos

O que isso muda para o Brasil

O Brasil sente o mesmo efeito, só que mascarado por um número só. O país fechou os sete primeiros meses de 2026 com superávit comercial de US$ 49 bilhões.

A indústria de transformação sozinha, porém, acumulou déficit de US$ 38,2 bilhões no primeiro semestre.

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O setor automotivo exemplifica o tamanho do problema. Seu déficit mais que dobrou, de US$ 4,8 bilhões no 1º semestre de 2025 para US$ 10 bilhões no mesmo período de 2026.

Parte da conta já tem nome. Marcas chinesas já respondem por 21,4% do mercado de veículos no país, segundo a Fenabrave.

Eletrônicos e remédios seguem o mesmo caminho. O déficit de alta tecnologia somou US$ 23,2 bilhões no semestre, sendo US$ 14,2 bilhões só do complexo eletrônico e US$ 8,4 bilhões do farmacêutico.

Por que o superávit não conta a história toda

A resposta está na composição das vendas brasileiras. Entre janeiro e julho, o Brasil exportou US$ 69 bilhões à China, impulsionado por commodities.

A soja vendida à China já representa 69,6% de toda a soja exportada pelo Brasil, e a celulose, 47,2%. O comércio com a China sozinho respondeu por quase metade do superávit total do país no período.

Foram US$ 24 bilhões de um saldo nacional de US$ 49 bilhões. É o padrão que economistas chamam de reprimarização. O Brasil exporta cada vez mais matéria-prima e importa cada vez mais produto industrializado, inclusive da própria China.

O Brasil já havia caminhado para o maior superávit comercial em três anos neste mesmo ciclo, puxado pelas mesmas commodities.

E o crescimento das exportações de alta tecnologia segue limitado, o contraponto que a manchete do superávit não mostra.

O que acontece agora

Na Europa, o encontro em Pequim desta semana deve definir se a UE avança com novas tarifas sobre produtos chineses, na esteira do que já fez com os elétricos.

No Brasil, o debate sobre taxar mais a importação industrial segue em aberto, sem data para uma decisão do governo.