Uma advogada de 35 anos foi presa em flagrante nesta sexta-feira (2), no Rio, suspeita de reter bens e documentos de uma idosa de 90 anos morta há sete anos, da qual era curadora desde 2014, em caso que expõe falhas na fiscalização da curatela.

Jéssica Cabral Barradas foi autuada por ocultação de documento público. Ela também responde, em processos à parte, por 16 crimes relacionados ao patrimônio da ex-curatelada (12 de apropriação de rendimentos de pessoa idosa, 2 furtos qualificados mediante fraude e 2 falsidades ideológicas).

Segundo a Polícia Civil, a investigação identificou transferências da conta da vítima para a conta pessoal da advogada, incluindo movimentações que continuaram depois da morte da idosa. Seis dias após o óbito, dinheiro saiu da conta da falecida para Jéssica, seguido de saque.

O filho da idosa cobrava a devolução dos documentos da mãe havia cerca de sete anos, segundo a Polícia Civil, enquanto a advogada alegava que os papéis estavam guardados em caixas.

O caso ilustra um mecanismo jurídico pouco visível. A curatela transfere a um terceiro o poder de administrar o patrimônio de quem perdeu capacidade cognitiva ou foi considerado, por laudo médico, incapaz de gerir os próprios bens.

Quantos casos como esse o Brasil registra

O Brasil registrou mais de 59 mil denúncias de violência patrimonial contra idosos em 2025, segundo o Painel da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. É um salto sobre as 51 mil denúncias de 2024, e a violência financeira é a terceira mais comum contra idosos.

Filhos são os principais suspeitos nesses casos. Foram 61,68% das denúncias em 2024, 60,94% em 2025 e 55,2% neste ano, segundo o mesmo painel.

A maioria das vítimas é mulher, sempre acima de 60% do total nos períodos medidos. Há subnotificação reconhecida, porque muitos idosos não denunciam por dificuldade de acesso aos canais oficiais, vergonha ou medo de retaliação.

Casos assim se repetem pelo país. Em Itaguaí (RJ), um idoso perdeu R$ 340 mil em dois golpes diferentes, segundo a polícia local.

Especialistas listam os principais crimes contra idosos e formas de proteção, entre eles o uso indevido de procuração e a retenção de documentos.

O ponto em aberto

Enquanto a Justiça apura as acusações contra Jéssica, o caso reabre uma pergunta estrutural. Quem fiscaliza o curador depois que a nomeação é feita?

Foi um pedido do próprio filho da vítima, repetido por sete anos, que acabou levando a polícia ao apartamento da advogada, não um mecanismo de checagem do Judiciário.

Com 59 mil denúncias de violência patrimonial por ano, fica a dúvida sobre quantos casos nunca chegam a esse ponto.