O cérebro não guarda lembranças como uma gravação em vídeo. Segundo o neurologista Thiago Taya, do Hospital Brasília Águas Claras, ele armazena fragmentos de cada experiência e, ao faltar um detalhe, preenche a lacuna automaticamente com informações que fazem sentido no contexto.

Durante a formação de uma lembrança, áreas do córtex cerebral guardam separadamente informações visuais, sonoras, olfativas e emocionais. Quando a pessoa tenta recordar, o hipocampo reativa essa rede e remonta o cenário em tempo real.

"O nosso cérebro não se mantém em situações de incompletude de informações, então ele tenta preencher automaticamente com coisas que mais fazem sentido", afirma Taya.

Como é inconsciente, a pessoa quase nunca percebe que a memória foi alterada. É o mesmo cérebro que não para de tentar prever o futuro, sempre em busca de uma narrativa que faça sentido.

Por que memórias falsas parecem tão reais?

Quando uma lembrança fictícia é repetida ou carregada de emoção forte, o cérebro passa a tratá-la como fato verídico. Existe um mecanismo que diferencia o vivido do apenas pensado, mas essa checagem pode falhar.

"Se as memórias falsas forem repetidas e sentidas de maneira vívida, podem começar a enganar o julgamento cerebral", pontua Taya. "O cérebro passa a julgar como real pela intensidade da experiência, e não mais pela etiqueta de ter acontecido ou não."

O fenômeno foi documentado por pesquisadoras como a psicóloga americana Elizabeth Loftus, que desde a década de 1970 estuda como sugestão e desinformação alteram lembranças.

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Em um estudo conhecido, Loftus e a pesquisadora Jacqueline Pickrell conseguiram implantar em adultos a lembrança de ficar perdidos num shopping aos 5 anos, um episódio que nunca aconteceu.

O trabalho de Loftus também influenciou a Justiça. Desde a década de 1970, ela atua como perita em casos que discutem a confiabilidade do depoimento de testemunhas oculares.

Dá para saber se uma lembrança é falsa?

Segundo Taya, é difícil diferenciar sozinho. A exposição repetida a fotos antigas, relatos de terceiros ou perguntas sugestivas também pode alterar a percepção do passado, principalmente quando o episódio é da infância.

Esquecimento recorrente também pode ser sinal de Alzheimer, quando passa de alterações normais da memória para perda que atrapalha a rotina.

O esquecimento também tem explicação biológica na gravidez, outro momento em que mudanças hormonais afetam a memória de curto prazo.