Tomar analgésico para aliviar dor é hábito comum no Brasil, mas o uso contínuo pode esconder a causa real do problema e atrasar o tratamento certo. Especialistas dizem que o alerta surge quando o remédio vira rotina, e não apenas um alívio pontual.
Quando o analgésico vira um problema?
O alerta surge quando o medicamento deixa de ser um controle momentâneo da dor e passa a virar um mecanismo de escape permanente, segundo o médico Lúcio Gusmão, especialista em dor e fundador da Rede CADE.
Ele afirma que o analgésico é importante em situações específicas. Mas não deve ser a resposta para todo incômodo. Quando a pessoa precisa tomar o remédio repetidamente só para seguir a rotina, é preciso investigar por que a dor continua.
A pressa também pesa.
Na correria do dia a dia, a busca é pelo alívio imediato, não pela recuperação da funcionalidade a longo prazo.
Quantos brasileiros sentem dor crônica?
Quatro em cada dez brasileiros sofrem de dor crônica, com duração superior a três meses, segundo levantamento usado pela ICTQ. Em 2019, pesquisa da Fiocruz apontou que 4,4 milhões de brasileiros, 2,9% da população, fizeram uso ilegal de algum opiáceo.
O dado ajuda a explicar por que tantas pessoas recorrem ao analgésico como rotina. A dor persistente é comum, mas nem sempre tratada na causa.
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Segundo a Anvisa, a venda prescrita de analgésicos à base de ópio cresceu 465% em seis anos, até 2018. A agência já suspendeu lotes de medicamentos como o paracetamol por problemas de qualidade, como um caso identificado em Belo Horizonte.
Como funciona o desmame de analgésicos?
O desmame começa pela investigação da causa real da dor, segundo Gusmão. A partir daí, a retirada do medicamento é mais ou menos progressiva, dependendo do remédio e do tempo de uso, com outras estratégias de controle da dor introduzidas no processo.
A dependência não depende só do tempo de uso. Pesam também o tipo de medicamento, a dose, fatores genéticos, a falta de disciplina do paciente e o contexto da dor, segundo o médico.
Um estudo publicado na revista Addiction, que acompanhou 4,3 milhões de pessoas com dor crônica tratadas com opioides, mostrou que 9,3% desenvolveram dependência, e quase 30% apresentaram algum sinal do transtorno.
Uma alternativa, segundo Gusmão, é a cannabis medicinal (CBD e THC), com menor risco de dependência e menos efeitos colaterais. Lula já sancionou projeto sobre dor crônica no SUS, sinal de que o tema ganhou espaço na política de saúde.
A automedicação com analgésico pode mascarar sintomas de outros problemas, não só de dor. A TV Sim Brasil já mostrou como isso acontece até com queda de cabelo tratada por conta própria.





























