Manaus registrou nesta sexta-feira (9) o pico de poluição do ar de toda a temporada de queimadas, com concentração de poluentes acima do dobro do nível considerado perigoso. O fenômeno piora à noite por um motivo atmosférico específico, explica o Inmet.

O pico de MP2,5 (partículas finas de poluição) chegou a 344,5 microgramas por metro cúbico às 2h desta sexta, segundo a Agência Brasil. Qualquer nível acima de 160 µg/m³ já é considerado perigoso.

A Defesa Civil de Manaus decretou alerta de risco à saúde e recomendou máscara PFF2, mais hidratação e evitar exercício ao ar livre. Aulas da rede municipal, da Ufam, da UEA e do Ifam foram suspensas.

Por que a fumaça piora à noite?

A fumaça piora à noite porque o ar perde a capacidade de se dispersar, explica a meteorologista Andrea Mendes, do Inmet. De dia, o sol aquece o solo e movimenta o ar; à noite, a superfície esfria e o ar fica mais estável.

"Em algumas noites pode ocorrer uma inversão térmica mais marcada, que funciona como uma espécie de 'tampa', dificultando ainda mais a dispersão dos poluentes", explica a meteorologista.

Isso não significa mais queimadas à noite. A atmosfera é que perde a capacidade de dispersar a poluição nesse período, padrão compatível com o que mostram redes de monitoramento como o Selva, da Universidade do Estado do Amazonas.

A escala do fenômeno em 2026

O Amazonas somava 6.811 focos de calor até 5 de outubro, mais que o dobro do registrado no mesmo período de 2025, segundo o Inpe. Setembro sozinho teve alta de 282,1% nos focos sobre o mesmo mês do ano passado.

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Mesmo com o salto deste ano, o Amazonas segue abaixo do recorde histórico. Em todo o 2024, pior ano da série, o Inpe contou 25.499 focos no estado.

A diferença não está só no número de incêndios. O ar de outubro, mais seco e estável à noite, segura a fumaça perto do chão por mais tempo.

O aumento também reacendeu a disputa entre o governo federal e estados amazônicos pela responsabilidade pelas queimadas. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, atribui o avanço a incêndios criminosos e à seca extrema.

Ela também cita mais recursos federais neste ano do que no governo anterior. Governadores da região, por sua vez, cobram mais ações e verbas da União.

O avanço das queimadas chama atenção porque caminha na direção oposta de outro indicador: o desmatamento no Amazonas caiu 57% em 2026, segundo o Inpe.

O Amazonas já havia decretado emergência climática por causa do El Niño, em junho.

No Brasil inteiro, as queimadas voltaram a subir depois do melhor agosto da história para o bioma.

O ponto em aberto

O Amazonas segue abaixo do recorde de 2024, mas 2026 já supera o ano anterior em mais de 100%, com outubro só começando. Falta saber se o pico de sexta foi o auge da temporada ou se Manaus terá novos episódios nas próximas semanas.