A imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos pode ameaçar a liderança do Brasil no café solúvel, segundo o diretor-geral do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), Marcos Matos. Em entrevista ao Poder360, ele expressou preocupações sobre a competitividade da indústria nacional frente a esse cenário.

Impactos da tarifa no mercado

De acordo com Matos, há um "otimismo moderado" em relação às negociações, mas a incerteza sobre a reversão das medidas ainda persiste. O diretor enfatizou que a prioridade do setor é garantir que o café solúvel seja incluído na lista de exceções da Investigação 301, procedimento comercial dos EUA que pode resultar na imposição da sobretaxa.

Concorrência e riscos de investimentos

O café verde, que representa cerca de 90% das exportações brasileiras para os EUA, já consta em uma lista preliminar de itens que podem ser isentos da tarifa. No entanto, o café solúvel não foi incluído. Caso a isenção não seja concedida, o Brasil poderá perder espaço para concorrentes como Vietnã e México, que possuem acordos comerciais vantajosos, gerando ociosidade na indústria nacional.

Mercado norte-americano

O setor cafeeiro movimenta cerca de US$ 250 milhões por ano no mercado dos EUA. O Cecafé aponta que a manutenção da tarifa poderia impedir que o Brasil ampliasse suas exportações em até 45% nesse segmento. Matos apresentou dados aos oficiais norte-americanos sobre a importância do café brasileiro para a economia dos EUA, destacando que o Brasil abastece 34% do café consumido no país.

Negociações com a União Europeia

Além das negociações relacionadas à Investigação 301, o Cecafé está atento às tratativas comerciais com a União Europeia, que são essenciais para o setor. O bloco europeu é o maior mercado em valor para o café brasileiro, movimentando cerca de US$ 7 bilhões anualmente, mas a taxa de 9% sobre o café industrializado reduz a competitividade do produto.

Estratégia de diplomacia do setor privado

Matos ressalta que o desfecho da Investigação 301 dependerá de decisões políticas entre Brasil e EUA. Ele sugere que o agronegócio brasileiro adote uma estratégia de "diplomacia do setor privado" para melhorar sua presença em centros de decisão. Também é crucial promover a qualidade e a origem do café brasileiro no exterior, aproveitando momentos de tensão comercial.

Monitoramento da safra e clima

O setor também está atento ao cenário produtivo, com a safra de 2026 prevista para ser recorde, apesar de atrasos devido a chuvas. A possibilidade de formação do fenômeno El Niño no segundo semestre é uma preocupação, uma vez que pode impactar a produção da safra de 2027. A combinação de incertezas climáticas e geopolíticas reforça a necessidade de ações para preservar a competitividade do café brasileiro.