A recente solicitação de recuperação extrajudicial da Raízen, que enfrenta dívidas de R$ 65,1 bilhões, destaca um fenômeno crescente no Brasil. Cada vez mais empresas estão optando por negociar com seus credores fora do âmbito judicial, especialmente após anos de juros elevados, um dos mais altos do mundo.

Crescimento das recuperações extrajudiciais

Os pedidos de recuperação extrajudicial cresceram significativamente, passando de 16 em 2021 para 84 em 2022. Esses pedidos abrangem setores variados, como indústria, varejo, agronegócio e logística, conforme informações do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre).

Até agora, em 2026, mais 33 empresas seguiram o mesmo caminho. Esse aumento é um reflexo do impacto da taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano, que afeta principalmente aquelas que contraíram empréstimos em momentos de juros baixos durante a pandemia.

Mudanças na legislação

Além do cenário econômico, uma reforma aprovada em 2020 fortaleceu o mecanismo de recuperação extrajudicial no Brasil, promovendo uma transformação cultural no setor. Juliana Biolchi, diretora do Obre, destaca que essa mudança permitiu que as empresas excluíssem certas classes de credores e iniciassem negociações antes de ter que recorrer à recuperação judicial.

Luiz Fabiano Saragiotto, sócio da Journey Capital, ressalta que as reestruturações judiciais são complicadas e custosas, envolvendo todos os credores e prejudicando a imagem da empresa. Ao contrário, a recuperação extrajudicial é uma alternativa mais simples e menos desgastante.

Casos emblemáticos

Um marco importante ocorreu em 2024, quando a Casas Bahia obteve aprovação para uma recuperação extrajudicial de R$ 4,1 bilhões, sem afetar seus fornecedores e clientes. Outros casos notáveis incluem a rede Tok&Stok e, mais recentemente, o GPA, que pediu a reestruturação de R$ 4,5 bilhões em dívidas.

O setor do agronegócio, que enfrenta altos níveis de endividamento, também tem adotado essa abordagem, mostrando que a recuperação extrajudicial está se tornando uma prática comum em diversas áreas da economia. O volume total de dívidas de empresas em recuperação extrajudicial em 2026 já ultrapassa R$ 109 bilhões.

Expectativas futuras

Os especialistas preveem que o número de recuperações extrajudiciais continuará a crescer nos próximos meses. A Oncoclínicas, a maior empresa de tratamento oncológico da América Latina, é uma das empresas que está considerando essa alternativa, embora tenha se recusado a comentar sobre o assunto.